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quarta-feira, setembro 25, 2013

A HISTORIA DA CARTILHA CAMINHO SUAVE


A "Caminho Suave" e o duro caminho da Educação brasileira

Morreu, neste início de século e de milênio, a educadora Branca Alves de Lima, aos 90 anos, deixando órfãos aqueles que acreditam que a alfabetização com cartilhas não só funciona muito bem como é mais simples do que essa "moda" atual do construtivismo.
Branca concebeu, em meados do século passado, a cartilha "Caminho Suave", que vendeu cerca de 40 milhões de exemplares desde então. Mais de um terço dos brasileiros adultos de hoje foram alfabetizados por ela.

Pergunte a essas pessoas como aprenderam a ler e a escrever. Vão lembrar com prazer do "F de faca", do "G de gato", dos desenhos que acompanham cada letra do alfabeto.A vida de Branca Alves de Lima é a síntese de um dos principais males -- se não do principal mal -- da Educação brasileira: o enorme desrespeito dos gestores e das políticas públicas educacionais em relação aos professores e professoras, aos estudantes e suas famílias.

Há pouco mais de três anos, Branca fechou sua editora, surgida no rastro do sucesso da "Caminho Suave". "Eles (o governo, o MEC e o Guia do Livro Didático, o Conselho Nacional de Educação, as secretarias de Educação etc.) estão projetando, quase decretando, que os alunos não usem mais cartilhas", disse numa entrevista, quando eu ainda era repórter de Educação da "Folha de S. Paulo".Disse mais: "Ao final de diversos anos é que vai se chegar à conclusão se o construtivismo dá ou não resultados.

Como jornalista de Educação e como educador, devo dizer que o construtivismo introduziu avanços extremamente importantes na alfabetização de crianças e na Educação como um todo -- embora esteja se tornando um conceito "guarda-chuva", daqueles que podem se referir a tudo ou nada.
Mas não é isso que está em questão. O problema é como as inovações, as metodologias, enfim, as reformas educacionais são implantadas nos sistemas de ensino brasileiro.
Na entrevista de 1997, Branca contou seu percurso como professora. Na década de 30, quando começou a lecionar, no interior paulista, a prática ''em moda'' para alfabetização se chamava processo analítico.

''Depois de 21 anos chegaram à conclusão que não funcionava e deram liberdade didática aos professores.'' Foi quando criou sua cartilha. Na década de 70, os ventos mudaram.
Veja hoje o caso dos ciclos. Professores e professoras que há décadas têm na reprovação seu principal recurso de disciplina foram, de uma hora para outra, proibidos de usá-la.

Sou radicalmente contra a reprovação, mas o que foi colocado em seu lugar? Uma capacitação que, quando existe, é capenga e de curta duração; salários miseráveis que selecionam profissionais cada vez menos formados; uma infra-estrutura que envergonha e entristece quem preza a Educação.

Os dirigentes e gestores da Educação -- os políticos, os ministros, os secretários, os delegados e diretores -- precisam aprender que não se muda cultura por decreto. E Educação é cultura, é visão de mundo, é uma maneira de se inserir e de inserir outros na sociedade.
O duro caminho da Educação brasileira é o autoritarismo exacerbado e já secular daqueles que acham que, a partir de seus gabinetes, podem resolver os problemas da Educação brasileira. Democracia dá trabalho, mas sem ela não se vai conseguir melhorar de fato o ensino nem, muito menos, formar cidadãos.


A EDUCADORA QUE ENSINOU A ENSINAR
E Branca era o seu nome. Nem tão comum e nem tão raro, simplesmente Branca! Fiquei curioso por conhecer mais a respeito de Branca e saí a pesquisar tudo o que viesse me informar sobre sua trajetória, sua obra e sua vida. Pouco encontrei e quase nada acrescentou além do que já sabia sobre Ela. Pesquisei nos sítios de busca na Internet e nada de sua biografia, perguntei então às pessoas que ora atuam no âmbito em que Branca atuara – a área educacional. Outra decepção! Das 194 pessoas a quem perguntei se conheciam Branca Alves de Lima, entre professores, coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais, estudantes de pedagogia e até bibliotecárias, apenas duas, entre todas essas pessoas, me responderam afirmativamente conhecê-la e somente Danielli Viana Cabral – uma excelente professora de literatura e redação respondeu convictamente e, até com uma certa dose de emoção, ser Branca Alves de Lima a autora da cartilha Caminho Suave, um dos livros mais lidos do Brasil.

Quem sabe não tenha sido o mais lido?
Eis aqui um fato singular em que a criação é mais conhecida que seu criador, nesse caso criadora, a Branca cuja vida e obra despertaram minha curiosidade de educador. Uma obra ser mais famosa que seu autor seria como a Mona Lisa ser mais conhecida que Leonardo da Vinci, O poema Rosa do Povo mais lembrado que Drummond, o quadro Guernica ser mais famoso que Pablo Picasso e a Nona Sinfonia ter mais renome que Beethoven. Para as pessoas que perguntei sobre Branca, questionei logo a seguir se conheciam então sua obra – Caminho Suave. A maioria respondeu sim e lembraram ter sido alfabetizadas através de seu método. Eis um trecho que extraí do Jornal Tribuna de Ribeirão Preto no google sobre Branca e sua cartilha Caminho Suave:

Na tentativa de ajudar os alunos a memorizar as letras e respectivas sílabas, fez desenhos simples que continham a inicial de palavras chaves: o a, no corpo da abelha, o e na tromba do elefante, o f no cabo da faca, o g no corpo do gato e, assim por diante.
O sucesso foi total. Várias gerações puderam aprender o c do cachorro, o b da barriga e do bebê e toda a seqüência do alfabeto.
Assim, em 1947, nasceu a cartilha Caminho Suave, um caminho mais ameno e menos doloroso para ensinar meninos e meninas a ler e escrever.

A primeira edição é de 1948, e por mais de 30 anos foi a principal arma de alfabetização do País. Existem exemplares da década de 80, quando sofreu várias modificações, tentando se adaptar ao novo método, e vários exercícios foram incluídos.
Em 1997 Branca Alves de Lima fechou sua editora, surgida com o sucesso da sua cartilha. Na época, em uma entrevista, a professora disse: Eles (o governo, o MEC e o Guia do Livro Didático, o Conselho Nacional de Educação, as secretarias de Educação etc.) estão projetando, quase decretando, que os alunos não usem mais cartilhas. Mas só ao final de várias décadas é que vai se chegar à conclusão se o construtivismo dá ou não resultados.

Há exatos quarenta anos, Dona Rossilda, minha professora do primeiro ano do grupo escolar, que saudades daquela época, descortinou para mim o mundo do saber que eu e milhares de alunos que por ela passaram iríamos adentrar, através da suavidade do Caminho Suave. Assim sendo foi o primeiro e neste momento é também o último livro que li, pois fiz questão de lê-lo ontem com o intuito de escrever esse texto e captar mais alguma informação útil sobre sua autora, a educadora Branca Alves de lima, Lembremos seu nome.

Estima-se entre 30 e 50 milhões o número de brasileiras e brasileiros alfabetizados pela cartilha Caminho Suave e, por isso mesmo, não entendo o desprezo que estudiosos e técnicos ligados à área educacional tenham dado a dona Branca. Compreendo as críticas e até defendo mudanças para se atingir melhorias, mesmo porque quando se buscam melhorias estas só são alcançadas pelo viés das mudanças. Como uma pessoa que dedicou parte de seus noventa anos de existência em benefício da educação e da qualidade de ensino possa ser tão esquecida, menosprezada até por seus pares, gente de seu próprio metier? Ser esquecido pelo povão de maneira geral é compreensível, pois esse irá valorizar muito mais juízas de futebol e amantes de senadores, por exemplo, que tiram fotos nuas para ganhar dinheiro e fama.

 Esse mesmo povo que se preocupa mais em saber quem matou a personagem da final da novela do que quem está matando nossas crianças que entram mais cedo no mercado de trabalho e também do crime. De um povo com essa mentalidade não se pode realmente esperar muita coisa, mesmo entendendo que é um povo que não tem culpa por ser formado e educado pela mídia televisiva e não pelas escolas, mas Branca foi esquecida e é desprezada por aqueles que precisariam conhecê-la, ainda que fosse somente para criticá-la, porém nem por esses Branca é lembrada.

 Mesmo assim resolvi escrever esse texto porque estamos vivendo o mês de outubro em que comemoramos o dia do Professor em duas datas: Internacional – 5 de outubro e Nacional – 15 de outubro. Escrevo sobre alguém que merece ser lembrado nesse dia e foi então que procurei conhecer Branca Alves de Lima, nome esse digno de carinho, respeito e acima de tudo ser lembrado sempre, pois graças ao seu trabalho o caminho de muita gente se tornou bem mais suave. E Branca era o seu nome e além do nome pretendo descobrir muito mais sobre Ela. Finalizo aqui com um poema de sua autoria, denominado “Casa Pequenina” e extraído da cartilha Caminho Suave elaborada para crianças que hoje cursam a segunda série do ensino fundamental:

Caminho Suave
Caminho Suave é uma obra didática, uma cartilha de alfabetização, concebida pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que se tornou um fenômeno editorial. De acordo com o Centro de Referência em Educação Mário Covas, calcula-se que, desde 1948 quando teve sua primeira edição, até meados da década de 1990, foram vendidos 40 milhões de exemplares dessa cartilha.
Em 1995, Caminho Suave foi retirada do catálogo do Ministério da Educação (portanto, não é mais avaliada), em favor da alfabetização baseada no construtivismo. Apesar de não ser mais o método "oficial" de alfabetização dos brasileiros, a cartilha de Branca Alves de Lima ainda vende cerca de 10 mil exemplares por ano.

Método de Alfabetização pela Imagem 

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 1997, Branca Alves de Lima relatou que quando começou a lecionar, em cidadezinhas no interior paulista, a prática pedagógica para alfabetização se chamava "método analítico". Com o fim do Estado Novo, em 1945, as autoridades do MEC chegaram à conclusão que o "método analítico" não funcionava e estava superado, e deram liberdade didática aos professores.
Foi observando a dificuldade de seus alunos, a maioria oriundos da zona rural, que Branca Alves de Lima criou o método que ela própria denominou "alfabetização pela imagem". A letra "a" está inserida no corpo de uma abelha, a letra "b", na barriga de um bebê, o "f" fica instalado no corpo de uma faca, a letra "o", dentro de um ovo e assim por diante.

Especialistas em pedagogia afirmam que "Caminho Suave" e "Sodré" (de Benedita Stahl Sodré, autora da Cartilha Sodré) são os únicos métodos realmente brasileiros de alfabetização em português. O método da cartilha Caminho Suave começa pelas vogais, forma encontros vocálicos e depois parte para a silabação. O sucesso editorial seria devido ao fato de unir o processo analítico ao sintético, facilitando o aprendizado.
Explica Maria Sirlene Pereir

a Schlickmann no ensaio "As cartilhas no Processo de Alfabetização" , in Revista Linguagem em (Dis)curso, volume 2, número 1, jul./dez. 2001 (Unisul)
"a) método sintético: obedece uma certa hierarquização, vai da letra ao texto através da soletração e silabação;
b) método analítico: este método ganha maior importânica na década de 1930 com a ascensão da psicologia, quando a maior ênfase é dada aos testes de maturidade psicológica.

Com o passar dos tempos, foram surgindo cartilhas que misturavam o método sintético e o analítico, o que o levou a ser chamado de Método Misto. Como exemplo, podemos citar a cartilha Caminho Suave, publicada em 1948 por Branca Alves de Lima, que traz toda a fase do período preparatório".

Ferramentas de Apoio 

A cartilha que alfabetizou 40 milhões de brasileiros, em 50 anos, ganhou ferramentas de apoio desenvolvidas pela educadora Branca Alves de Lima. Eram cartazes, cartazetes, carimbos, baralhos e livros de exercício (na década de 1980).